A Criança que Ainda Chora Hoje
Sozinho diante da porta fechada. - Franz Kafka
Emerson Franco
4/2/20261 min read
A criança não entende o universo dos adultos, inclusive suas regras e normas. É através da relação com o adulto que ela é introduzida no mundo. Quando esse processo é interrompido com violência — muitas vezes justificada como "correção" ou pela dificuldade do adulto em lidar com aquele novato no "negócio de viver" —, a criança pode chegar a pensar que a culpa é dela, sentindo-se desajustada ao ritmo.
Assim, ela tenta se manter no compasso em que a banda toca; espera que as coisas aconteçam para que, então, reaja de acordo. Tatua em seu corpo a moral e a ética do adulto na ânsia de corresponder às exigências do mundo que não a acolhe. Sobrevive.
Quando adultos, tendemos a olhar para a nossa criança e “adultizar” nossas experiências, como se fosse possível nos colocar como responsáveis e, ao mesmo tempo, infantis demais para entender a suposta sabedoria do adulto em nosso cuidado. Escondemos no mais profundo de nós as emoções causadas pelas violências, com o intuito de organizar, dar sentido e continuar pertencendo: "Eu apanhei muito e não morri".
Pode não ter morrido, mas a criança escondida encontra seus meios de continuar chorando aquilo que não queremos — ou não conseguimos — aceitar como uma falha de quem tanto amamos.
